O uso de células-tronco pluripotentes (CTPs) humanas pode ser uma importante ferramenta para auxiliar nas pesquisas com doenças comuns no Brasil, como a Doença de Chagas. Esta alternativa foi proposta pela pesquisadora Lygia da Veiga Pereira junto a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-RJ) e já apresenta resultados relevantes.

O artigo “Trypanosoma cruzi infection of human induced pluripotent stem cell-derived cardiomyocytes: an in vitro model for drug screening for Chagas disease”, foi publicado na plataforma Science Direct (Elsevier) e está disponível no link: https://goo.gl/eamKEa.

Dra. Lygia da Veiga Pereira

A Profa. Dra. Lygia da Veiga Pereira é pesquisadora principal do Centro de Terapia Celular (CTC) da USP e coordenadora do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE) da USP.

A doença de Chagas é uma doença parasitária causada pelo protozoário flagelado Trypanosoma cruzi, sendo a cardiomiopatia chagásica crônica uma importante manifestação clínica da doença. A incidência é mais recorrente em locais onde o inseto triatomíneo (Barbeiro) é encontrado, com regiões endêmicas na América do Sul e América Central, mas com a migração populacional esta doença já atinge países da Europa e América do Norte.

O grupo coordenado pela pesquisadora Mirian Claudia Souza Pereira, do Laboratório de Ultraestrutura Celular da Fiocruz, trabalha com o estudo da interação T. cruzi-célula hospedeira, utilizando culturas de cardiomiócitos (células musculares que compõe o músculo cardíaco) de camundongos como modelo experimental. Os cardiomiócitos isolados não sobrevivem ao subcultivo, o que torna o processo trabalhoso e repetitivo.

“A estratégia foi apresentar o modelo de cardiomiócito humano proveniente de CTPs para estudo da interação Trypanosoma cruzi-célula hospedeira e sua aplicação na triagem de compostos com atividade tripanocida promissora, visando também avaliar a cardiotoxicidade”, explica a Dra. Mirian Pereira.

Segundo a Dra. Lygia da Veiga Pereira, com as CTPs é possível gerar quantidades ilimitadas de cardiomiócitos humanos, sem precisar de corações murinos e de onde retirá-los.

“As células foram enviadas para a Fiocruz, onde eles realizavam os experimentos de infecção. Num segundo momento, foi avaliada também a capacidade de estudar drogas contra o parasita nessas células. Podemos agora pensar em várias perguntas dentro da área de Chagas que poderiam ser investigadas com as células cardíacas humanas, incluindo interação parasita-célula e a validação de drogas identificadas em células animais”, explica a pesquisadora.

As células-tronco pluripotentes utilizadas foram produzidas pela empresa Pluricell, financiada pelo programa FAPESP de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). Para a Dra. Lygia da Veiga Pereira é importante que grupos de pesquisa possam adquirir as células diferenciadas comercialmente para seus experimentos, sem ter que estabelecer em seus laboratórios toda a metodologia complexa de cultivo e diferenciação das células.

O estudo conclui que o modelo de cardiomiócitos humanos contribuirá para avanços no entendimento da biologia de interação do Trypanosoma cruzi com a célula alvo de infecção. O fato do modelo estar disponível comercialmente é um ponto facilitador na condução de novas pesquisas nesta área.

Compartilhe: